16 de Março de 2008

The clouds will be a daisy chain

Descobri lá no Bebendo, que o Gerador de Probabilidade Infinita está fazendo uma promoção bem bacana... Bacanérrima, melhor dizendo!

A promoção é a seguinte: você deve fazer um post dizendo qual é a sua canção predileta do quarteto de Liverpool, avisar lá que fez isso e esperar que seu post seja o rei do iê-iê-iê e aí, caro leitor, você fatura um livro dos Beatles: THE BEATLES - LETRAS E CANÇOES COMENTADAS (depois que você acabar de ler aqui, vai lá e veja direitinho qual é, ok?)

Parece fácil, mas não é... Pra começo de conversa você tem que escolher UMA (u-ma) música só! "Como é que faz isso, jisuis?" Sei lá, aí o problema é seu... Puxa na memória, faz unidunitê, escreve o nome de todas e sorteia... Se vira, que tu não é quadrado...



Eu não tive nenhuma dúvida: DEAR PRUDENCE é a música dos Beatles que eu mais gosto, porque me faz lembrar de uma pessoa tão querida, tão especial... Vamos lá; senta que lá vem a história:


Zaka era o meu melhor amigo, daqueles pra quem eu contava tudo, e com quem eu contava pra tudo. Nos conhecemos quando, literalmente, foi atropelado por mim no Parque do Museu Mariano Procópio, em Juiz de Fora. Eu estava fugindo de mais uma daquelas visitas chatérrimas que o colégio fazia todo ano, e ele estava sentado, tocando violão e olhando esse lago aí... Não o vi ( e nem ouvi, porque tava de walkman*) e ploft!, caí por cima do pobre rapaz! Eu não sabia onde enfiar a minha cara e ele ficou morrendo de rir... Passada a vergonha, sentei-me ao lado dele e começamos a conversar, e a cantar... Desde então nunca mais nos desgrudamos, nos víamos quase todos os dias depois da aula (eu estudava, ele não) e ele ia andando comigo até a porta de casa, mas nunca entrou lá. Era porra-louca demais e minha mãe extremamente preocupada, com certeza iria implicar com ele. Eu também nunca fui à casa dele, nunca conheci seus pais, só sua irmã, mas isso só algum tempo depois... Um dia ele me contou que tinha o relacionamento complicadíssimo com seus pais e que quase nunca ficava em casa, perambulava pela cidade, dormia na casa de amigos... Bem, era complicado. Eu vivia catando comida lá em casa pra ele, até casaco da "campanha do agasalho", que o colégio promoveu, eu roubei pra dar a ele. E ele roubava as flores mais bonitas pra me dar, ou inventava canções horripilantes (ele era péssimo nisso) com meu nome, ou com as histórias que eu contava pra ele.
Zaka era um doce, um anjo, mas tinha um problema: se drogava muito... Muito mesmo! Às vezes sumia, por uma semana, duas... Eu ficava morrendo de preocupação, até que aparecia com um bombom e uma margarida, me pedindo desculpas e jurando que nunca mais faria isso de novo. Mas fazia... E eu ficava com tanta raiva que jurava a mim mesma que nunca mais falaria com ele de novo, mas lá vinha ele, com a margarida e o bombom e aquela cara de cachorro sem dono, e eu ficava aliviada e feliz.
Um dia, numa das nossas tardes errantes pela cidade, ele me disse que ia dar um tempo, viajar. Disse que escreveria assim que parasse em algum lugar. Eu sabia que eu nunca mais o veria. Quando, depois de algum tempo, eu perguntei se ele voltaria, ele me disse que não, que aquela era a nossa tarde de despedida, e eu - claro - comecei a chorar compulsivamente... E foi então que ele começou a tocar Dear Prudence pra mim... Eu me acalmei e fiquei olhando pra ele, me despedindo da melhor pessoa que eu já havia conhecido na minha vida.


Quase um mês se passou depois daquela tarde e eis que toca o interfone, uma mulher chamada Joana disse que tinha uma carta pra mim. Era a irmã dele. Desci as escadas como um foguete, ansiosa pra ter notícias dele, mas quando olhei a cara da Joana, percebi que boa coisa não vinha. Antes de me entregar a carta ela disse que as notícias não eram nada boas. Zaka havia se matado, um dia depois que nos despedimos. Não sei porque, não sei como, mas eu não chorei. De certa forma eu sabia que era isso que ele ia fazer, a única coisa que consegui fazer foi perguntar porque eu demorei tanto pra receber aquela carta, e Joana disse que foi o tempo que ela demorou pra me encontrar.
Demorei a tarde inteira pra abrir aquela carta... Eu olhava pra ela, ela olhava pra mim, e eu tinha medo. Por fim, abri a tal, e o que estava escrito nela?

Dear Prudence, won’t you come out to play.
Dear Prudence, greet the brand new day.
The sun is up, the sky is blue.
It’s beautiful and so are you.
Dear Prudence won’t you come out to play?
Dear Prudence open up your eyes.
Dear Prudence see the sunny skies.
The wind is low the birds will sing
That you are part of everything.
Dear Prudence won’t you open up your eyes?
Look around round
Look around round round
Look around.
Dear Prudence let me see you smile.
Dear Prudence like a little child.
The clouds will be a daisy chain.
So let me see you smile again.
Dear Prudence won’t you let me see you smile?
(tradução aqui)

Guardei esta carta por alguns anos, até que um dia voltei ao Parque do Museu e a joguei no lago, dentro de uma caixinha de madeira que ele fez pra mim.


Ufa! Como foi complicado escrever essa história... mas é essa. Se eu vou ganhar o livro? Não sei, talvez não, mas a promoção já valeu um bocado por me ter feito lembrar... =)
Agora clica na K-7 e ouve a música aí:





(*) walkman era um toca-fitas (ui!) portátil, com fone de ouvido. O meu era esse aqui, ó (mais precisamente o prateado)!

14 comentários:

ShinoSan disse...

Ohayoooo Juliana-chan!

Caramba, que história mais bonita, emocionante, charmosa, mais VIVA!

E essa musica é realmente uma ótima música deles!

Essa competição esta me dando nos nervos já sabia? Rs*

Só tem gente boa escrevendo! Não quero nem ver o resultado!

Mas enfim. Boas sorte para a senhorita!

Suzana Sotero disse...

Puxa! a historia sua historia daria até um filme... muito bom você compartilhá-la por aqui. A musica é linda mesmo.
bjo

Márci disse...

Alguém me traz um lenço....Que linda a história...eu não me contive...snif...

Tá...vai minha torcida pra vc tb para ganhar o livro ! \o/

Amigao disse...

Já ganhou, já ganhou, já ganhou.
Muito linda esta história.
Eu quase chorei.Pq lembrei de um amigo que tambem já se foi.
A musica também é linda.
Beijos do amigão!

Maria Regina disse...

Eu me sinto uma ET porque sou a única pessoa que acha Beatles bem chatinho, e droga é uma bosta mesmo. ;~
Mas a história é fofa, por mim você levava o livro. :)

Beijos.

Junior Lins disse...

acompanho (por feed0 teu blog já há um tempinho. e hoje ao ler isso foi um daqueles raros momentos em que você pára e começa a pensar na vida.

melhor ter tido experiencias, mesmo que dolorosas em alguns momentos, que nunca ter tido né?

que bom que vc considera essa uma experiencia inesquecivel.

Thay disse...

Nossa! que história linda!
Isso daria um filme. é bom viver fatos assim.
A promoção já é sua!

beijinhos

Du disse...

Juliana, que história tão triste e tão bonita ao mesmo tempo! Deve ter sido o seu jeito de contá-la, tão rica em detalhes e emoção!Parabéns por ter agido da forma como agiu com seu amigo, outra no seu lugar, talvez não tivesse a sensibilidade de perceber a pessoa especial que ele era, já que foi rejeitado pela própria família...

Se eu fosse jurada nesta promoção, você já seria a vencedora, até dispensaria ler os outros posts!

A minha música preferida é:

"Nothing's gonna change my world,
Nothing's gonna change my world.
Nothing's gonna change my world,
Nothing's gonna change my world.

Images of broken light which dance before me like a millioneyes,
They call me on and on across the universe.
Thoughts meander like a restless wind inside a letter box,
They tumble blindly as they make their way "ACROSS THE UNIVERSE"...

Beijos e boa sorte!

Éverton Vidal disse...

Triste e linda a história... como a música também, que me dá uma saudade de nao-sei-bem-o-que. Lembrei de amigos tb que ainda estao por aqui por esse chao.

Olha, parafraseando vc (rs), podes até nao ganhar, mas a promoçao já valeu um bocado por ter te feito escrever esse texto e compartilhá-lo com a gente.

Ah... adorei sua 'apariçao' lá no meu blog, sou fä daqui já tem um teeempo. Quando der... aparece pra dizer 'uia' rs

Bjao!
Inté!!!

Cah disse...

Mas que história linda e triste! meus olhos encheram d'água aki, te juro! Por mim o livro jah é seu!!!

Cynthia Santos disse...

Nossa, que história linda! Me deixou nostálgica... lembrei dos meus amigos maluketes do tempo de colégio...tive um que saía de madrugada pra fazer pichação na rua... e pior, a arte-final era sempre minha! Ahahahah
Beijo, amei sua história,amo Beatles, mas não tenho uma história linda assim ligada a uma canção deles, torço por você!

Tacila disse...

De primeira eu não iria ler,até pq o texto enorme me assustou, mas algo me fez parar e ller, Quando a istória acabou simplesmente eu percebi q tinha viajado nela como se eu estivesse lendo um livro, daqueles q não dá vontande de parar de ler. A história me impressionou, por um momento achei q fosse invenção, mas por mais q fosse isso não importa, sei q a história mesmo com um fim trágico é muito linda e reflexiva. Bom é isso, primeira vez q venho ao seu blogger, mas gostei muito, principalmente pq percebi q vc é bem nacionalista...rsrs
vlw, e continue escrevendo...

Paty Maionese disse...

Ai Ju, chorei feito criança aqui em frente ao pc em plena redação do jornal.
Você realmente me emocionou. História linda. Comovente.

Nanamada disse...

Impossivel não emocionar com sua histori!!
Sabia que a Naan que me avisou de sua postagem?rs.
Muito linda!

Ufa! outro dia tentei comentar so dava pagina nao encontrada..
maldita conexão via rádio,rsss

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